Descendo a rua da ladeira. Só quem viu, que pode contar. Cheirando a flor de laranjeira. Sá Marina levei prá dançar... De saia branca costumeira. Gira o sol, que parou prá olhar. Com seu jeitinho tão faceira, fez o povo inteiro cantar... Roda pela vida afora. E põe prá fora esta alegria. Dança que amanhece o dia. Prá se cantar. Gira, que essa gente aflita. Se agita e segue no seu passo. Mostra toda essa poesia do olhar... Deixando versos na partida. E só cantigas prá se cantar. Naquela tarde de domingo. Fez o povo inteiro cantar. E fez o povo inteiro cantar...
29.7.08
6.7.08
e as palavras não dizem
Já faz quase um mês que não deixo registros por aqui. Não é por falta de assunto, acreditem. Só não sei por onde começar. É como na máxima de Roberto "eu tenho tanto para te falar, mas com palavras não sei dizer...".
... confesso que estou ensaiando um post há um tempinho. As idéias surgem, mas logo passam. Não se concretizam - e nem se aproximam de algo que se possa chamar de texto. Queria escrever sobre um reencontro. Aconteceu no final de semana do dia 21 de junho. Viajei mais de nove horas para chegar a Juiz de Fora. Minha avó mora lá há quase quatro anos - e desde o dia em que ela resolveu arrumar as malas e voltar para a cidade de sua vida, não nos encontrávamos.
Moramos muitos anos com a vovó Luiza. Como já escrevi por aqui, saudades não faltavam. Emoção e lágrimas - de alegria e tristeza - não faltaram. Voltei para casa com um aperto no coração. Durante a viagem de volta, enquanto o ônibus saculejava, eu me deparava com cada momento vivido durante aqueles dois dias. Até hoje, confesso, pego umas lágrimas escorrendo de vez em quando.
Vovó mora em uma casa de repouso. Tínhamos que estar preparadas. Tristeza e melancolia eram mais do que esperadas. Mas não encontramos o que acredito ser fundamental para todos os seres - até o final de nossas vidas: a dignidade. Parece que ela já não existe para cada uma daquelas pessoas que ali estão... Por não saber como traduzir em palavras tudo o senti diante daquela dor dos outros, preferi não escrever, não falar, não lamentar...
Como dizem por aí, às vezes só o silêncio tapa os buracos...
(Vovó não quis voltar para São Paulo com a gente. Ela diz que se sente bem por lá - e deve mesmo ser verdade. No dia 21 de junho, ela completou 78 anos de vida. Uma festa, com direito a cachorro-quente, canjica, bolo e docinhos, foi preparada. Convidados foram aos montes - cada um, com um presente para lá de especial para a 'Dona Luiza'. Lá ela se sente importante. Lá estão as histórias que ela quer contar e ouvir. Lá ela tem um cantinho só dela. Lá ela é feliz. E é isso que deve importar...)
Vovó Luiza comemorando seus 78 anos
... confesso que estou ensaiando um post há um tempinho. As idéias surgem, mas logo passam. Não se concretizam - e nem se aproximam de algo que se possa chamar de texto. Queria escrever sobre um reencontro. Aconteceu no final de semana do dia 21 de junho. Viajei mais de nove horas para chegar a Juiz de Fora. Minha avó mora lá há quase quatro anos - e desde o dia em que ela resolveu arrumar as malas e voltar para a cidade de sua vida, não nos encontrávamos.
Moramos muitos anos com a vovó Luiza. Como já escrevi por aqui, saudades não faltavam. Emoção e lágrimas - de alegria e tristeza - não faltaram. Voltei para casa com um aperto no coração. Durante a viagem de volta, enquanto o ônibus saculejava, eu me deparava com cada momento vivido durante aqueles dois dias. Até hoje, confesso, pego umas lágrimas escorrendo de vez em quando.
Vovó mora em uma casa de repouso. Tínhamos que estar preparadas. Tristeza e melancolia eram mais do que esperadas. Mas não encontramos o que acredito ser fundamental para todos os seres - até o final de nossas vidas: a dignidade. Parece que ela já não existe para cada uma daquelas pessoas que ali estão... Por não saber como traduzir em palavras tudo o senti diante daquela dor dos outros, preferi não escrever, não falar, não lamentar...
Como dizem por aí, às vezes só o silêncio tapa os buracos...
(Vovó não quis voltar para São Paulo com a gente. Ela diz que se sente bem por lá - e deve mesmo ser verdade. No dia 21 de junho, ela completou 78 anos de vida. Uma festa, com direito a cachorro-quente, canjica, bolo e docinhos, foi preparada. Convidados foram aos montes - cada um, com um presente para lá de especial para a 'Dona Luiza'. Lá ela se sente importante. Lá estão as histórias que ela quer contar e ouvir. Lá ela tem um cantinho só dela. Lá ela é feliz. E é isso que deve importar...)
Vovó Luiza comemorando seus 78 anos 12.6.08
depois daquela noite
... o filme terminou com uma valsa sobre um noite de amor. A nossa história começou ali - naquele 17 de janeiro de 2005. E (ainda bem) foi além daquela única noite.
'A Waltz For a Night', Julie Delpy em 'Antes do Pôr-do-Sol' (2004)
2.6.08
quando a lembrança se desfaz
Quando ainda era bem pequenininha coloquei um item especial na minha lista de coisas para fazer durante a vida: conhecer, sentir e viver o amor. Aquele em estado mais puro, simples e belo. Queria seguir os passos da vó Luiza e do vô Abrahão, que foram além das definições do dicionário... Pessoas como eles são raras. Sempre acreditei que são poucos os que sabem, realmente, qual é o verdadeiro significado do verbo amar - aquele que vai muito além do "demonstrar amor a; sentir grande afeição, ternura ou paixão por", como consta Houaiss...
... ontem as lágrimas escorreram do começo ao fim. Previsível, para ele que me conhece tão bem. Logo nas primeiras cenas de Longe Dela, o primeiro filme da canadense Sarah Polley, lembrei-me da história de amor que acompanhei durante alguns anos - e que me servirá de inspiração para toda a vida. Delicado e emocionante. Foram as primeiras palavras nas quais pensei para definir a obra de Sarah. Mas palavras não são as protagonistas. O silêncio, ele sim, é o grande ator. Ele nos deixa sem chão - e com a sensação de um vazio sem fim, que nem o choro pode abafar.
Julie Christie e Gordon Pinsent moram na província de Ontário, no Canadá, e interpretam um casal de uma história sobre amor, companheirismo e solidão. Ela é Fiona. Ele, Grant. Estão juntos desde os tempos da faculdade - "em 44 anos, não passaram um único mês separados". Mas os sinais do mal de Alzheimer começam a se revelar em Fiona - a internação em uma clínica deixará Grant longe dela pela primeira vez. Mas só durante o período de adaptação. Grant nos apresenta, então, o amor - aquele que consta em minha lista.
Mesmo sabendo que Fiona já não o reconhece, ele está lá. Grant poderia ter ido. Para sempre. Mas está lá. Diariamente. Acompanha todos os caminhos de Fiona - mesmo sabendo que eles a levam para um mundo bem distante daquele que eles viviam. As lembranças se desfazem, e Fiona se apaixona por um outro homem, Aubrey, também internado. Grant, a esta altura, é um estranho - um alguém que passeia pela clínica todos os dias.
Grant não desiste. Persistente e incansável, continua a observar a sua menina, mesmo sabendo que os laços que os juntaram não são mais palpáveis como antes. Ele, talvez, tenha entendido que nada apagará o que viveram. Ama - não por obrigação. Simplesmente ama. Fiona será para sempre sua. E ele será sempre dela...
... ontem as lágrimas escorreram do começo ao fim. Previsível, para ele que me conhece tão bem. Logo nas primeiras cenas de Longe Dela, o primeiro filme da canadense Sarah Polley, lembrei-me da história de amor que acompanhei durante alguns anos - e que me servirá de inspiração para toda a vida. Delicado e emocionante. Foram as primeiras palavras nas quais pensei para definir a obra de Sarah. Mas palavras não são as protagonistas. O silêncio, ele sim, é o grande ator. Ele nos deixa sem chão - e com a sensação de um vazio sem fim, que nem o choro pode abafar.
Julie Christie e Gordon Pinsent moram na província de Ontário, no Canadá, e interpretam um casal de uma história sobre amor, companheirismo e solidão. Ela é Fiona. Ele, Grant. Estão juntos desde os tempos da faculdade - "em 44 anos, não passaram um único mês separados". Mas os sinais do mal de Alzheimer começam a se revelar em Fiona - a internação em uma clínica deixará Grant longe dela pela primeira vez. Mas só durante o período de adaptação. Grant nos apresenta, então, o amor - aquele que consta em minha lista.
Mesmo sabendo que Fiona já não o reconhece, ele está lá. Grant poderia ter ido. Para sempre. Mas está lá. Diariamente. Acompanha todos os caminhos de Fiona - mesmo sabendo que eles a levam para um mundo bem distante daquele que eles viviam. As lembranças se desfazem, e Fiona se apaixona por um outro homem, Aubrey, também internado. Grant, a esta altura, é um estranho - um alguém que passeia pela clínica todos os dias.
Grant não desiste. Persistente e incansável, continua a observar a sua menina, mesmo sabendo que os laços que os juntaram não são mais palpáveis como antes. Ele, talvez, tenha entendido que nada apagará o que viveram. Ama - não por obrigação. Simplesmente ama. Fiona será para sempre sua. E ele será sempre dela...
